Seja bem vindo(a), Quinta-Feira, 14 de Dezembro de 2017
23
Ago
Seu Joaquim

Por estarmos iniciando hoje, não será possível redigir minhas opiniões, razão pela qual sugiro esta.
Noé Massari

Estava caindo aos pedaços, a primeira casa que seu Joaquim comprou na Vila Maria. Pagou barato porque além do estado precário, fazia parte de um inventário com oito herdeiros que não se entendiam.

Fez a reforma sozinho. Renovou parte elétrica, hidráulica, consertou o telhado, assentou azulejos, cimentou o piso e levantou as paredes necessárias para dividi-la em três cômodos de aluguel.

Quarenta anos mais tarde, quando o conheci, seu Joaquim tinha mais de cem inquilinos e duas famílias.

A primeira esposa, dona Consuelo, com quem se casara aos dezenove anos, era filha de espanhóis, ex-secretária de uma firma a duas quadras do sobrado em que ele vivia com os pais portugueses. Com ela tivera dois filhos e uma filha, muito apegada ao pai.

A segunda, dona Maria das Dores, conhecera quinze anos mais tarde. Era inquilina de um de seus apartamentos, tímida, religiosa, dedicada ao extremo às duas filhas do casal, dependente do marido para tudo que não dissesse respeito ao lar.

Orgulhava-se de ter-se dividido entre as duas famílias de forma tão justa que nenhum dos filhos podia considerar-se preterido. Mesmo com as duas mulheres sua conduta havia sido equidistante, segundo acreditava. Dera a elas igual oportunidade de separação, caso desejassem, sem nenhum prejuízo financeiro.

Morava com dona Consuelo no bairro da Aclimação, e com dona Maria das Dores, no Tatuapé, em casas de igual valor.

Quando os filhos do primeiro casamento atingiram a maioridade, começaram a trabalhar com o pai, no escritório montado para administrar as propriedades da família.

Nessa época, as duas mais novas, filhas do segundo casamento, cursavam a escola primária.

Avesso ao automóvel e a desperdiçar dinheiro com táxis, organizava a vida diária com disciplina espartana: de segunda a sexta passava as noites com dona Consuelo. Depois do café da manhã, saía com os três filhos do casal para o escritório na rua Senador Feijó, a duas quadras da praça da Sé, no carro do mais velho.

Num tempo em que os paulistanos se davam ao luxo das refeições em casa, meio-dia e meia voltavam para o almoço. Às duas da tarde retornavam ao trabalho. Às quatro, ele descia com o paletó a pretexto de um café na padaria e tomava o ônibus, para chegar na saída da escola das mais novas às cinco em ponto.

Levava as meninas para casa, ajudava-as nas lições, vestia pijama depois do jantar e deitava com elas para contar histórias. Às onze da noite, punha o terno outra vez beijava dona Maria e as crianças adormecidas, pegava o ônibus para a cidade, e de lá para a Aclimação.

Aos sábados, vinha do escritório com os mais velhos ao meio-dia para a tradicional feijoada de dona Consuelo, que reunia os sobrinhos e os amigos dos filhos em confraternização ruidosa que o deixava muito feliz. No meio da tarde, à francesa, evaporava.

Era o único dia da semana em que ficava a noite inteira com dona Maria e as crianças. Domingo acordava cedo para levá-las passear, almoçavam juntos e brincavam no quintal. Às seis, beijava as filhas, dizia-lhes que o papai precisava trabalhar, e voltava para a outra casa.

Lá, depois do banho, colocava a pizza no forno, bebia o único copo de cerveja da semana e sentava no sofá de mãos dadas com dona Consuelo, na frente da TV.

"Repeti essa rotina com disciplina por décadas a fio, presente todos os dias nas duas casas, sem uma única exceção. E ainda carreguei fama de safado, homem de duas mulheres, enquanto outros, respeitáveis, casados com uma só, saíam até com prostituta."

Não se arrependia, no entanto:

"Valeu a pena. Muitos homens se orgulham de ter criado uma família. Criei duas com a mesma dedicação, o carinho, e o conforto que dei a uma, dei à outra."

Seu Joaquim administrou a evolução e o tratamento da enfermidade, com a competência demonstrada na condução das duas famílias. Passou três anos muito bem, dividido entre as duas casas e o trabalho, como antes.

Quando o quadro se agravou, vinha acompanhado alternadamente pelas duas famílias, que jamais se encontraram.

Deixou mais de vinte imóveis para cada filho, divididos em partes rigorosamente idênticas.

Fonte: Drauzio Varella http://religiosamente.blogfolha.uol.com.br/2014/08/23/dentro-do-templo-de-salomao/

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